
Como é a advocacia da realidade
A controladoria jurídica só serve para grandes escritórios e advogados. Essa é a conclusão mais fácil de se chegar e, provavelmente, contribui para esse ser um tema ainda pequenino perto do volume dos demais estudos jurídicos. Acho até que não poderia ser diferente, já que o direito tem como base as relações que estabelecemos em nossas vidas em sociedade, enquanto a controladoria jurídica se limita à abordagem que cada profissional ou escritório adota na gestão e controle de seus procedimentos internos.
Antes de falar sobre as razões que me levam a crer que a controladoria jurídica importa, vamos olhar alguns indicadores da advocacia. No Brasil nós já somos quase 1,5 milhão de advogados1, dos quais, segundo o 1º Estudo Demográfico da Advocacia Brasileira (de abril de 2024):
- 64% ganham até R$ 6.600,002 por mês
- a nota média atribuída à carga de trabalho é de 5,8 de 10
- a nota média de satisfação com a prática da advocacia é de 6,3 de 103
- 52% sentem que a profissão está piorando
Bem ou mal todos fazemos a gestão das atividades do cotidiano, certo? Não é porque algumas pessoas não têm uma metodologia que elas deixam de fazer as coisas que entendem ser necessárias para conduzir a sua profissão ou seu escritório. O fato é que tudo o que é feito, ou não, produz uma consequência, desejável ou não.
Nesse artigo eu trago algumas provocações para você que sente que não tem tempo suficiente para fazer tudo o que precisa e está insatisfeito com os rendimentos do seu trabalho – deixando claro o meu posicionamento, que é: você tem todo direito de fazer escolhas, não quero ser a pessoa que diz “você precisa disso ou daquilo”.
A controladoria jurídica em um escritório no interior
Nosso escritório fica no interior de Goiás e atua exclusivamente para produtores rurais, atendendo as diversas áreas do direito. Uma estrutura com 18 pessoas, das quais 8 são advogados. Nosso fundador tem 33 anos e eu, que era o mais velho do escritório até pouco tempo, acabei de completar 35. Nossas demandas são muito diferentes umas das outras, de média e alta complexidade em sua maioria, geralmente com valores expressivos em negociação ou litígio.
Além do risco operacional, de cometer um erro e causar um dano relevante aos clientes, essas características tornam a padronização do trabalho (atendimentos, peças, audiências, sustentações, etc.) desafiadora. De toda forma, acreditamos que precisamos ser o melhor que pudermos em cada aspecto do nosso trabalho, para prestar um serviço de qualidade e conseguir agregar valor para os clientes e para nós.
Aqui a principal diretriz para o trabalho de rotina é a alocação correta (tradução livre do conceito Rightsourcing4) que busca compatibilizar a atividade que, se não puder ser automatizada, será feita pela melhor pessoa para fazê-la, no momento mais adequado, com as ferramentas mais eficientes. Praticar esse conceito é um exercício contínuo, no qual começamos com o que é possível e depois buscamos a evolução. Em resumo, o que perseguimos é fazer a atividade da forma mais eficiente e com o melhor custo-benefício.
Hoje temos uma certa maturidade na controladoria jurídica, que começa a ser introduzida ainda nos processos seletivos, com a observação de características dos candidatos que sejam favoráveis aos nossos processos internos. Ao entrar para nossa equipe a pessoa passa por uma integração que tem uma parte dedicada aos procedimentos. Temos sistemas, com dados estruturados, metodologias, apresentações de resultados e percebemos que estamos bem posicionados no assunto quando conversamos com outros colegas.
Em escritórios como o nosso, a transformação é constante e acontece quase de forma imperceptível. Isso ajuda em um dos pontos críticos do funcionamento da controladoria jurídica que é o engajamento de todos os membros, incluindo os sócios, que contribuem significativamente para nosso avanço. Acreditamos que o choque de gestão pode até transformar a rotina rapidamente, mas a melhoria continua tem se mostrado mais sustentável.
Qual o tamanho do orçamento para começar?
Aí você pode pensar: ok, mas para fazer isso você precisa ter dinheiro para investir. Talvez surpreendentemente para você, não! E existem diversas técnicas (as quais não falarei nesse artigo) que você pode utilizar sem ter que mexer no seu bolso, uma vez que, a alocação correta pode partir do princípio do que é o melhor que você já tem acesso. Ou seja, a utilização dos recursos que já fazem parte da sua rotina, das pessoas que trabalham contigo ou que você pode pedir um suporte, dos seus equipamentos e softwares, ou aos que você consegue usar (por exemplo pela OAB na sua região), e, principalmente, do seu conhecimento e capacidade de fazer as coisas de outra maneira. Inclusive, essa abordagem de aproveitar o que está ao seu redor, no seu empreendimento, tem um nome: effectuation5.
Quantos ‘incêndios’ você apagou esta semana que poderiam ter sido evitados com gestão?
Às vezes nós estamos tão envolvidos na nossa rotina, apagando incêndios, que criamos uma ideia de que precisamos de um “salvador” – um curso, uma pessoa, uma consultoria, um sistema, etc. -, que só assim poderíamos aprimorar a gestão das nossas atividades. O que a minha experiência tem mostrado não é isso. Na verdade, vejo escritórios tradicionais que falham na implantação da controladoria jurídica, mesmo investindo um volume considerável de dinheiro, por não conseguirem sustentar a mudança, começando por seus fundadores, que não aderem às novas práticas.
A falta de capacitação na gestão e controle acaba atrapalhando a nossa visão em relação à existência e à forma de execução de atividades que não são técnico-jurídicas. Nós fazemos de tudo no escritório, mesmo não sendo algo que fomos treinados para fazer. Esse é um contrassenso facilmente perceptível, já que, por lógica, qualquer um sabe que vai fazer melhor algo que se treinou e se sabe, do que o contrário.
SAMANTHA ALBINI na obra Controladoria Jurídica Para Escritórios de Advocacia e Departamentos Jurídicos (Editora Juruá, 2019, p. 123) descreve bem como acaba funcionando a rotina de quem acumula todos os tipos de atividades:
(…) como prioridade em geral o advogado tem: 1) atender o cliente (pessoalmente, por telefone e responder aos e-mails), 2) peticionar (prazos ou não), 3) trabalhar consultivamente, 4) realizar audiências e sustentações orais. Por último, fica essa atividade de gestão, a qual ele precisa fazer, mas não prioriza, até porque possui diversas outras atividades técnicas a serem realizadas.
É exatamente nesse contexto que acabamos deixando a gestão e o controle de lado. Quanto maior é a quantidade de demandas e clientes, menos nós visualizamos como vamos ter tempo para essas atividades e mais sobrecarregados, estressados, sem tempo e suscetíveis a erros ficamos.
A controladoria jurídica tem um começo que é bem mais simples: é a compreensão, individual e coletiva, de que as coisas podem ser feitas de uma forma que busque melhorar a qualidade, o resultado e a rentabilidade das nossas atividades. Esse paradigma gradativamente pode impactar a forma como você atende as demandas dos seus clientes, como lida com a complexidade dos sistemas dos tribunais, como você recebe e cumpre os prazos.
O entendimento e a dedicação a atividades de gestão e controle vão amadurecendo ao longo do tempo para outras estratégias, como a contratação de um sistema diferente, de pessoal com atribuições mais definidas, de consultorias em gestão, em tecnologia, ou qualquer outra que contribua com seus objetivos de negócio como profissional, ou escritório. Aí sim pode ocorrer uma tendência crescente de aplicação de mais recursos. Mas nesse ponto, provavelmente, esses investimentos estarão te trazendo resultados concretos.
MARIO ESEQUIEL, em sua obra Gestão Eficiente de Escritórios de Advocacia (Editora Saint Paul, 2016, p. 94) diz que “sem uma gestão adequada até mesmo as mentes mais brilhantes podem ser desperdiçadas”. Isso acontece porque ao não organizar o trabalho de rotina, acabamos fazendo uma gestão ineficiente do nosso tempo.No final eu acredito mesmo que a controladoria jurídica só serve para grandes escritórios e advogados, mas essa grandeza não é faturamento, quantidade de processos ou de pessoal, é a forma como encaramos nossa profissão e o nosso negócio.
Fontes: [1] Disponível em: https://www.oab.org.br/institucionalconselhofederal/quadroadvogados Acesso em: 16/05/2025
2 Disponível em: https://s.oab.org.br/arquivos/2024/04/68f66ec3-1485-42c9-809d-02b938b88f96.pdf P. 77. Acesso em: 16/05/2025
3 Idem, p. 83.
4 Disponível em: https://brightflag.com/resources/what-is-rightsourcing-and-how-to-apply-its-benefits/ Acesso em: 16/05/2025.5 https://effectuation.org/
